A Gestão (management) seria mesmo uma “ciência”, uma “técnica” ou uma “arte”?

Gestão (gerenciamento) pode ser definida como um “ato” ou “omissão” interferencial nos processos de uma organização com vistas ao alcance dos objetivos ainda não conquistados ou reversão de tendências negativas observadas por métricas previamente estabelecidas e disponíveis aos tomadores de decisão. Este “ato” ou “omissão” interferencial é algo preponderantemente científico, seria mais técnico que científico ou meramente artístico?!

Vamos ver as definições clássicas destes conceitos:

  • A ciência não cria as coisas nem objetos, estes já existem e a ciência procura conhecê-los, explicá-los e predizer seu comportamento. Baseiam-se em hipóteses, teorias, leis, modelos e postulados.
  • A técnica é a complementação da ciência e seu objetivo é manipular a realidade sem querer explicá-la ou mesmo entendê-la, contendo regras, normas e procedimentos documentados que retroalimenta a ciência com eventuais impotências de manipulação com o atual grau de conhecimento.
  • O objetivo da atitude artística realiza-se de forma individual, pessoal, subjetiva e vivencial (intransferível portanto), para ser comunicada ou não aos outros indivíduos (quem não entender a arte é considerado menos sábio), sem rigor, sem quaisquer imposições, com a flexibilidade que a personalidade e o estilo de cada indivíduo impõe e com toda a captação vivencial, emocional e espiritual da realidade que o indivíduo sente, percebe e palpita.

Se você disse que a gestão é uma mescla dos 3 conceitos, é uma boa forma de ficar em cima do muro! Mas o que precisamos fazer aqui é defender que embora a gestão seja mesmo uma mescla de tudo isto, ela deve ser caracterizada com alguma predominância, ou seja, preponderantemente como técnica e/ou científica (não quis dizer acadêmica hein!). Uma gestão marcada por atitudes eminentemente artísticas (aquelas que Deus invade o gestor para iluminá-lo na tomada de decisão) não pode ser a tônica atualmente. Quando se propõe um modelo de gestão de excelência, é um pressuposto que a preferência seja técnico-científica em detrimento do artístico.

Sempre exemplificamos este conceito fazendo referência ao desempenho da seleção brasileira masculina de futebol em comparação com a seleção brasileira masculina de vôlei. Embora estejamos isolados por termos sido 5 vezes campeões do mundo de futebol (1958, 1962, 1970, 1994, 2002) sempre conquistamos estes títulos por causa de algum jogador específico que acabou fazendo a diferença por ser craque (Pelé em 1958, Pelé e Garrincha em 1962, Pelé em 1970, Romário em 1994 e Ronaldo em 2002), fato este que justifica que valorizamos mais os dotes artísticos e não estruturados processualmente do que o contrário.

Em contrapartida a seleção brasileira de Vôlei foi 9 vezes campeã da Liga Mundial da Federação Internacional de Voleibol (1993, 2001, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2009 e 2010), 2 vezes medalha de ouro em Olimpíadas (Barcelona em 1992 e Athenas em 2004), 3 Vezes Campeã do Mundo consecutivamente (2002, 2006 e 2010) e nas categorias de base (Sub-19 e Sub-21- Junior & Youth) ocupa o terceiro lugar geral do ranking da FIVB (164 pontos em 15 de janeiro de 2010). As gerações de jogadores e técnicos de vôlei têm até mudado, mas os resultados tem-se mantido de forma sistemática e estruturada.

Creio que podemos dizer, sem muito medo de errar, que a gestão no vôlei é mais técnico-científica do que no futebol. Ambas têm lá seus resultados que surpreendem o mundo, mas me parece lógico desejar, preferir, os métodos da seleção de vôlei do que da seleção de futebol. Há mais gestão efetiva na Confederação Brasileira de Vôlei (tendo como Presidentes o Sr. Carlos Arthur Nuzman de 1975 até 1997 e o Sr. Ary Graça Filho de 1997 até os dias de hoje) do que na Confederação Brasileira de Futebol (que tem como Presidente o Sr. Ricardo Terra Teixeira desde 1989).

Uma abordagem parecida, mas relativa ao mundo empresarial corporativo mais específico poderíamos comparar se fizéssemos as seguintes perguntas: Quem é necessário matar para acabar com o SBT? Quem é necessário matar para acabar com a GLOBO?

As respostas seriam bem diferentes não seriam?!

Se lembrarmos de alguém específico (caso do Senor Abravanel, vulgo Sr. Silvio Santos, no caso do SBT) então terá como preponderância a gestão artística (alinhado ao conceito exposto anteriormente). Mas se não nos lembrarmos de ninguém, ou de alguém que já não faz mais parte da gestão (caso do Sr. Roberto Marinho, no caso da REDE GLOBO, que morreu em 2003 com 99 anos de idade e tendo começado seu império somente em 1965 quando já tinha 61 anos), então a gestão terá como preponderância a abordagem técnico-científica.

Todas as argumentações e postulados da Qualidade da Gestão no mundo corporativo tende para uma abordagem mais técnico-científica e empírica e isto não quer dizer que uma abordagem artística não seja bem-sucedida, muitas vezes o é, mas será sempre dependente e finita. A abordagem alternativa (técnico-científica) sempre será menos dependente de alguém especificamente (APESAR das pessoas e não por causa DA pessoa) e mais perene.

Quem prefere a gestão técnico-científica opta pela Excelência da Gestão Integrada que se caracteriza pela postura sistêmica e ativa de, profissionalmente, interferir nos processos organizacionais para conquistar otimização de resultados ou ainda reverter tendências negativas. Quem pretere esta alternativa e prefere a gestão artística opta pela “Tocação” empresarial (advinda da resposta comum quando se pergunta a um empresário “como vão as coisas” e ele diz: “vamos tocando….”) que se caracteriza pela postura não sistêmica e reativa de, profissionalmente, administrar eventos não desejados e recorrentes para conquistar otimização de resultados ou ainda reverter tendências negativas.

O objetivo é o mesmo (conquistar otimização de resultados ou ainda reverter tendências negativas), e o que muda é a forma com que se busca este objetivo (gestão ou “tocação” empresarial) e por quanto tempo isto se repete.

Os modelos de Excelência de Gestão disponíveis nas diversas literaturas e referenciais obedecerão preponderantemente a um estilo técnico-científico, em detrimento ao estilo artístico, e a uma lógica de pensamentos submissos a:

  • Visão Sistêmica = visão integrada e holística voltados ao conceito de processo ponta-a-ponta em detrimento da visão departamentalista e funcional clássica;
  • Visão Consiliente = visão transversal e inter-relacionada, considerando os conhecimentos, as práticas de gestão e os processos organizacionais complementares entre si e sempre vivos e interconectados, nada irrelevantes de serem compreendidos por todas as partes interessadas em algum grau.

Pense nisto!

Tirá-lo da zona de conforto e fazê-lo refletir e agir é a minha principal função…Você sempre é o único culpado….por tudo de bom.. …e de ruim, em sua vida!

Orlando Pavani Júnior
Diretor e Presidente